segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Moradores protestam contra linha do bondinho no Leme

14/12/2014 - Jornal do Brasil
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Augusto Mello

Moradores do bairro do Leme, na Zona Sul do Rio de Janeiro, fizeram mais um protesto na manhã deste domingo (14) contra o projeto de instalação de uma nova estação do teleférico no Morro do Leme. A concessionária Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar pretende construir a nova estação em uma área de proteção ambiental que pertence ao Exército e onde funciona o Forte Duque de Caxias. 

Uma barraca foi montada para reunir assinaturas contra a nova estação. Lá eram vendidas camisetas a R$ 5, para arrecadar verba para fabricar banners e instalá-los nos prédios do Leme. Patrícia Rocha, líder do movimento 'Salvem o Leme', falou com o JB sobre o risco que o bairro corre, já que enfrenta dificuldades de mobilidade. Ela rebate o argumento de que o projeto visa atender mais turistas, citando cidades como Paris e Roma.


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"A Torre Eiffel não atende todo o público, nem o museu do Louvre, nem o Coliseu. Então o que deve ser feito aqui no Rio é criar condições melhores para o público, fazer vendas antecipadas, por exemplo", disse. "Tem gente de fora do Rio e até de fora do Brasil que é contra essa nova linha do teleférico. Pessoas que fizeram esse caminho e se encantaram. A sociedade diz não. A Unesco diz não."

O engenheiro Pedro Paulo da Poian, de 76 anos, que mora no bairro desde os anos 1950, também cita a trilha: "Já existe esse caminho que vai da escola do exército até lá em cima, no Forte Duque de Caxias. A caminhada é linda, bem cuidada, bem sinalizada. A gente está querendo sensibilizar o Exército para que ele se posicione contra", declarou.

>> Para pressionar Exército, moradores marcam protesto contra bondinho no Leme

"Querem alterar algo que já é tombado. O caminho é ecológico, aprazível. Esse bondinho vai contra o modelo de turismo que é tendência mundial. A pessoa pode fazer uma caminhada, de 20 minutos, conhecer a vegetação, a fauna do lugar", afirmou Gilda Fittipaldi, que também mora no Leme. "O exército tem que se manifestar contra esse projeto. Nós estamos enviando cartas aos generais para que eles se posicionem."

Ney Helou é psiquiatra, tem 63 anos, e morou quase a vida inteira no bairro. Ele lembra a dificuldade de mobilidade que pode piorar ainda mais com a instalação da nova linha do bondinho no bairro. "Nós só temos uma saída do Leme hoje, que é pela avenida Atlântica. Às vezes demoramos até meia hora só para chegar na avenida Princesa Isabel", diz ele, lembrando que pode ser um problema ainda mais grave, em casos de emergência. Ney garante que não se trata de bairrismo, já que, segundo ele, a mudança pode repercutir negativamente em outros bairros também. "O Leme tem uma convivência entre morro e asfalto e que serve de piloto para toda a cidade".

Estela Menezes, 68 anos, publicitária aposentada e moradora do Leme também protestou: "É uma coisa tão irresponsável em matéria de circulação. Onde vão ficar todos esses ônibus de turismo. O que a gente ganha com isso? Se pelo menos tivéssemos alguma contrapartida, daria para negociar", diz ela. 







Estamos sendo excluídos desta cidade cara. A gente sofre com isso

O autônomo Dinei Medina, de 33 anos, é morador do morro do Chapéu Mangueira. Ele alerta que a obra pode provocar uma grande remoção de moradias em sua comunidade. "O teleférico tem que ser debatido também com os moradores da Babilônia e do Chapéu Mangueira. As favelas do Rio estão sumindo. Estamos sendo excluídos desta cidade cara, com essa falsa especulação imobiliária. A gente sofre com isso. Enquanto o preço do metro quadrado está lá em cima, temos esgoto a céu aberto". 

Álvaro Maciel também mora no Chapéu Mangueira e é descendente de um dos primeiros moradores do morro. Ele elogia o movimento: "É importante para unirmos os moradores. A favela também faz parte do Leme". 

Abílio Tozini, morador de Botafogo (bairro vizinho), fez duras críticas ao projeto: "Estão querendo descaracterizar a cidade e acabar com o patrimônio histórico, como fizeram com o Centro. Temos que exigir o fim dessa destruição. E eles só querem o lucro fácil. Em vez de investir em outras áreas da cidade que também têm potencial. Querem pegar financiamento do BNDES para beneficiar uma família, um clube e construir esse trambolho no alto do morro". O grupo de aproximou da área do exército e alguns manifestantes fizeram discursos. Em seguida., todos gritaram juntos: "Exército brasileiro, diga sim à preservação! Teleférico não!".

A assessoria de imprensa da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, empresa que administra o teleférico, informou ao Jornal do Brasil que não haverá estação no Leme e nem venda de bilhetes no Forte. Se os turistas subirem pela trilha, não será possível comprar bilhetes para o teleférico. A empresa também esclarece que "a nova linha se limita a fazer a ligação entre o Morro da Urca e o Morro do Leme (Forte Duque de Caxias) não havendo descida por teleférico  para o Bairro do Leme e nem venda de tickets no Forte".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Moradores se mobilizam contra bondinho que ligaria o Leme à Urca

03/12/2014 - Jornal do Brasil

Danos ambientais e forte impacto no bairro são algumas das principais queixas

Stefano Grossi*

O projeto de implantação de uma terceira linha do bondinho do Pão de Açúcar, que seria instalada no Forte do Leme em direção ao morro da Urca, apresentado pela companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar - empresa que construiu, opera e administra o Bondinho Pão de Açúcar -, está causando uma enorme polêmica no bairro do Leme.

Logo da campanha contra a instalação do teleférico.
Logo da campanha contra a instalação do teleférico.
O medo dos moradores é que o teleférico tire a tradicional tranquilidade da bucólica região. A reclamação abrange diversos tópicos, desde o aumento do número de pessoas que passa pelo local, até a devastação ambiental que a obra poderia causar.

Em 2013, moradores do bairro do Leme fizeram um protesto contrário à instalação do teleférico. Com placas de "Salvem o Leme", "Vamos salvar nossa história" e "Aqui não cabe teleférico", os moradores mostraram sua indignação.

Em um perfil criado em uma rede social com o nome de "Salvem o Leme", a associação dos moradores compartilha um abaixo assinado virtual para aqueles que quiserem colaborar com a causa. Até o encerramento da reportagem, já haviam sido coletadas 1.973 assinaturas. 

Neste mesmo perfil, uma notícia que compara o preço cobrado àqueles que querem visitar o Pão de Açúcar com o que é cobrado para quem visita a Torre Eiffel, em Paris, assusta os visitantes. A mesma matéria lembra que existe uma trilha em meio à natureza que leva os visitantes ao alto do morro - local onde possivelmente será instalada a estação - que é de graça durante as terças-feiras. Nos outros dias da semana é cobrado um valor simbólico de R$ 4.

Segundo moradores, o bairro é antigo, assim como suas construções. Muitos dos prédios não possuem garagem e os moradores guardam seus carros nas ruas próximas às suas casas. A quantidade de pessoas que a instalação da linha do teleférico traria ao bairro dificultaria os moradores a encontrar vagas.

"Eu moro em um prédio antigo, e como na maioria dessas construções, não tenho vaga de garagem. Sou obrigado a parar o meu carro na rua. As vezes não consigo vagas aqui próximo ao prédio. Já é difícil hoje em dia, que o movimento é relativamente tranquilo, imagina se eles constroem esse bondinho. Vou ter que pagar um estacionamento para poder deixar meu carro tranquilamente", reclamou Carlos Cardoso, o Caca, morador do Leme.

O vereador Paulo Messina (SDD) é um dos que se colocam contra o teleférico. Inclusive, o parlamentar criou o Projeto de Lei 41/2013, que tem como função "manter preservada a Área de Proteção Ambiental (APA), de qualquer atividade turística que possa causar degradação da APA, assim como transtornos de condições sociais e urbanas ao moradores do bairro do Leme".

"É inadmissível aceitar mais de sete mil turistas diariamente em um bairro que é estritamente residencial, sem vocação e estrutura para turismo de grande porte. Isso vai causar um impacto direto no trânsito do bairro, vai prejudicar o embarque e desembarque de turistas, aumentar o ruído e, consequentemente, prejudicar a qualidade de vida do bairro", comentou o vereador.

O vereador comentou também que o Conselho Gestor das APAs foi claro quanto ao impacto ambiental que a instalação do teleférico vai causar no local.

"Trata-se de área de preservação ambiental, e a obra pode acarretar derramamento de graxa da lubrificação dos cabos e despejo de esgoto na baía, como já acontece no Pão de Açúcar, sem contar a poluição visual e sonora prováveis. Em seu parecer, o Conselho Gestor das APAs foi claro a respeito do impacto ambiental causado pela construção de estações de teleférico no topo do Morro do Leme sobre o ecossistema das áreas abrangidas pelo Projeto de Reflorestamento e Conservação Ambiental, que vem sendo desenvolvido no local desde 1987", encerrou Messina.

A PL 41/2013 foi apresentada pelo vereador Paulo Messina em março de 2013 e até hoje não foi colocada em votação. O morador do bairro Natanael Silva, 73, lamenta o que ele chama de "pouco caso" da Câmara dos Vereadores com o bairro do Leme.

"É um absurdo, uma falta de respeito com os moradores do Leme. O projeto do vereador Messina foi apresentado em março do ano passado e até hoje não foi votado, é sempre adiado. Isso só mostra o descaso que a Câmara tem com a gente. E se ficar decidido que vão construir o teleférico aqui, vai mostrar que o descaso não é só com os moradores, é também com a cidade. Pois isso vai atrapalhar a vida de todas as pessoas que moram aqui", lamentou Natanael.

O membro do Conselho Gestor da APA, Abílio Tozini alega que a construção da estação do teleférico iria causa uma descaracterização do local, que é um forte, e portanto, tem apelo histórico.

"O Morro do Leme, na situação em que está, retrata o processo histórico do que aconteceu ali ao longo da história do Brasil. A instalação de um 'trambolho', tipo estação de teleférico, descaracterizará completamente o local e desfigurará a história, o que é inaceitável", afirma Tozini.

Segundo o líder comunitário Sebastián Rojas Archer, o projeto de instalação da terceira linha do teleférico no bairro do Leme deixaria o acesso ao bairro da Zona Sul carioca muito complicado.

"O projeto é do início do século XX, e naquele tempo a cidade não tinha a quantidade de moradores e muito menos a relevância turística que tem hoje. O bairro já é pequeno para os moradores e não tem condições de comportar mais turistas. Além disso, a área ambiental deve ser preservada" comentou o morador.

O projeto para a implantação segue parado aguardando autorização da prefeitura para o início das obras.